segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Como gente grande.

Outro dia conheco um garotinho que sempre está por aqui pelo Júlio César vendendo amendoins torrados. Ele se chama Israel dos Santos Nascimento e tem 9 anos de idade, aparentando uns 5. Mora no bairro do Buquêrão - Parque da Cidade e estuda na Escola São João, está na 4ª série.
Tem o seu lado diabinho de ser, xinga que é uma beleza, gosta de bater uma "luvinha" com conhecidos e bater pra valer, bate na sua cabeça se você estiver de costas a ele, não podendo dar mole porque o murro é pesado. Pois é, o garotinho é pequeno mais é um capetinha.
Sentado, tocando meu violão vejo ele passando, para o lado e pro outro, sem parar, até a rua não ter mais movimentação, pessoas no bar, comprando pão.
A noite é bem cansativa pra ele, as pessoas que vêem ele vendendo amendoin pensam "Mais que menino pequetitico..." e sempre compram na mão dele. O pai, fica sentado numa praça com a sua bandeija de amendoins cheia, enquanto o pequetitico Rael trabalha forte, cansativo, ele e o seu irmão, maiorzinho um pouco.
Sempre que estou na praça tocando violão ele vem conversar comigo. Teve um dia que ele não guentava mais trabalhar, sentou ao meu lado e suspirou forte, tadinho, estara cansado e não poderia falar nada, pobre garotinho inocente.

- E aí cabeludo --- diz ele com uma voz fininha e cheio de gírias.
- Fala mosquinha, conseguiu vender bastante ? ( sempre que faço essa pergunta ele não responde, virando a cara ).
Fica conversando comigo uns dois minutinhos e depois sai pra vender mais.
Um dia estava numa lanchonete daqui do Júlio conversando com amigos, até quando vejo ele sentar ao meu lado, dessa vez ficamos conversando pra valer, por uns minutinhos a mais. Olhei pra carinha dele exausta e disse :

- Fala mosquinha.
- Diga cabeludo
- Me diz uma coisa, do que você gosta de brincar ?
- Gosto de jogar futebol, basquete, picula.... várias coisas, cabeludo. ( toda vez que olha pra minha cara e fala alguma coisa, me chama de cabeludo com uma cara meio que de infezadinho. )

Mas é isso, esse exemplo do pequeno grande Israel que queria passar aqui. Vemos nas ruas de nossa rotina crianças ralando bastante, como gente grande pra conseguir um pão com cafézinho de cada dia numa bela manhã. Serve para agente sempre fazer o bem pra essas crianças inocentes, não olhar pra elas de uma outra forma, porque essas crianças tem todo o direito do mundo de crescer como pessoas saudáveis e com uma cidadania boa de estatuto estável. Mas é complicado, sempre a desigualdade social vem ao meu olhar, ao meu olhar de preocupação, olhar de desespero, enfim, olhar de decepção.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Quem roubou meu futuro ?

Minha escritora favorita, professora-amiga-conselheira é o que Cirlene tem sido pra mim, muito importante para mim e para o meu conhecimento. Finalista do 3ª Concurso Causos do ECA, elogiada pelo maior pensador desse Brasil, o Gabriel Pensador, minha professora, que orgulho. Uma grande incentivadora e inspiradora d'eu escrever e devo isso muito a ela.
3ª colocada do Concurso Causos do ECA.
Tranquila, simpatissísima, gente boa, brotherzona, mas, não é daquelas professoras que bota a mão na cabeça dos alunos, e isso admiro muito nela, tem o seu jeito de professora mizeravona ( trabalho feito a mão de 50 questões que o diga ) mas no fundo ela é uma professora maravilhosa e só quer o bem de todos.

"...chega de lero-lero e nem vem pra cá que te quero..."
Por Cirlene Maria Vilas Boas Cunha, com vocês :



Quem roubou meu futuro ?



Falo por um adolescente filho desta nação,
O que poderia servir a outros na mesma situação.
Faço uma denúncia: tentaram roubar seu futuro,
Tirar a esperança do seu coração.
Tentaram roubar seu futuro.
Ele é jovem, ele é duro.
Não sabe o que fazer e nem para onde ir.
Tomaram o seu amanhã
E ele não sabe até quando vai resistir.
Ei, vocês, que venderam o futuro desse garoto
Pelo preço dos trinta dinheiros da corrupção.
Vocês que manipulam a vida de toda a população,
Escutem com atenção:
Temos um novo pensamento,
Para vocês, nós somos a contra-mão.
Levanto esta questão que, inclusive, se faz urgente.
De repente, não mais que de repente,
Defendemos em alto e bom som os direitos genuínos desta gente
De toda criança e de todo adolescente.
Direitos que lhes querem negar, de tanto que aqui
As coisas estão de pernas para o ar.
Direitos de um povo sofrido,
De mãos para o alto em vários tipos de assalto.
Mas que ainda pode bradar.
Falar mais firme, falar mais alto, seus direitos reivindicar.
Seu nome é José Vicente e o que acontece com ele,
Acontece com muito mais gente.
Tem apenas 15 anos de miséria e sofrimento profundo.
Sua mãe, além dele, tem mais cinco, Sendo cada um de cada pai
Que deixou a semente e caiu no mundo.
Vicente trabalha desde pequenino,
Catando lata e papel no lixo,
Para vender e ganhar um trocado para comprar comida
E assim ajudar sua mãe
E assim vai tocando a sua dura vida.
Amanhece e lá vai ele,
Trilhando o mesmo caminho.
Muito mal come um pão.
Nem sonha com o tal "danoninho".
Brincar então, nem pensar.
O que ele sabe sobre direitos e igualdade,
Sem distinção de raça, de classe ou naturalidade?
Quem lhe avisa que todos somos filhos iguais
De uma pátria amada, mãe gentil
Que, como boa genitora,
Não deveria fazer distinção entre as crias?
Apesar de toda a miséria e necessidade de trabalhar,
Vicente está na escola, mas não gosta muito de estudar.
Cansado, desnutrido e desatento,
Como aluno não chega a brilhar.
Mas esse menino tem um grande talento
E sempre que dá, se põe a pintar
Onde pode e até onde não pode.
Ele gosta mesmo é de desenhar.
Exímio nessa arte, qualquer um percebe.
Falta material, mas sobra imaginação.
Ele risca paredes, carteiras, o chão, tudo o que vê.
Nas ruas, picha muros.
Essa é sua mania.
Na escola, todos reclamavam de Vicente.
Só vivia na diretoria.
Nas ruas tomava até surra.
Sua arte ninguém entendia.
Como sua professora, sensível ao seu talento e história,
confiei em seu potencial e idealizei um projeto.
Uma oficina de arte.
Dando uma força e fazendo minha parte.
Consegui apoio da diretora da unidade escolar
E doação de material.
Selecionamos alunos interessados, alunos carentes.
Um dos mais empolgados era ele mesmo, justamente.
O garoto rebelde, o nosso Vicente.
Confiamos a ele algumas paredes onde, com tintas doadas, ele pudesse se expressar.
Um lindo trabalho de grafitagem estampou-se na escola,
De que ele, então, aprendeu a gostar.
Todos o elogiaram e passaram a valorizar.
Sua auto-estima teve uma melhora considerável.
A escola manteve exposto o seu trabalho admirável.
Suas notas melhoraram, seu comportamento também.
Sentiu-se mais gente, mas os benefícios foram além.
Seu dom foi, por muitos, reconhecido.
Atualmente, bem mais crescido,
Vicente já não picha e nem rabisca em qualquer lugar.
Somente em telas, camisetas e paredes
Que lhe pagam para pintar.
E assim ele vive dignamente do seu dom,
Como um menino artista; um menino bom.
E o futuro quase roubado de um filho da pátria amada,
Foi, de certa forma, pela escola resgatado.
Futuro presente na vida do nosso Vicente.
Futuro um pouco mais digno, um pouco mais decente.
Futuro com direitos que servem a ele
E a qualquer outro adolescente.
Direitos garantidos por Estatuto vigente.
Que, inclusive, no artigo 58,
Determina que o processo educacional
Respeite o seu valor artístico e cultural.



Fonte : http://www.promenino.org.br/CausosdoECA/tabid/56/TabId/77/ConteudoId/00cda6ce-c233-4ca6-9e63-503bea9e7089/Default.aspx

sábado, 16 de fevereiro de 2008

"Uma esmola pelo amor de Deus, uma esmola por caridade..."

Quantas vezes eu passo pelo sinal fechado e vem um garotinho, uma senhora gravida ou não, senhores com deficiencias físicas, mulheres com filhos no colo e me pedem uma esmola... o que acho "legal" mas não sendo porque lugar de criança é na escola, é aqueles garotinhos que ficam na frente do sinal fechado fazendo malabares, as vezes quando passo de carro ou mesmo andando dou um trocado que me restou na calça. Mas, o gesto que mais me chamou atenção foi de dois garotinhos lá na Cidade Baixa, próximo ao Ferry Boat, eu estava chegando da ilha, eles estavam fazendo malabares : O mais novo ficava em cima de um mais velho resistente e começava a fazer aqueles malabares : Jovaga a perna pro alto e passava por baixo, jogava pra um lado, pro outro, o mais velho se segurando, cambaleava mas os dois meninos faziam os malabares perfeito. Ao terminar os malabares os dois meninos botavam as suas mãozinhas perto do vidro dos carros pedindo uma esmola, eu acho que a maioria das pessoas gostaram desses garotinhos, pois ninguém fechou a vidro do carro, pelo menos pelo o que eu vi, quando chegou no carro que estava com minha prima, segurei a mão dele e joguei umas 2 ou 3 moedas, o garotinho inocente botou um sorrisão no rosto e disse :
- Obigado. - recontribuí o sorriso.

Tem uns meninos de rua que se juntam para fazer grupinhos para assaltar pessoas, com facas, canivetes, etc, mas creio eu que seja só pra assustar, eles só querem uma vida mais saudável, as vezes o pobre coitado tá passando fome, mas tem muito vagabundo por aí que gosta de assaltar por assaltar que gosta de ganhar a vida fácil.

...esse é o nosso BRASIL.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Ilha de Amoreiras.

Hoje falarei um pouco das minhas férias de 2008 que passei no sossego absoluto da ilha de Amoreiras.
Como sempre no iníciozinho de fevereiro passo o meu carnaval na ilha, sempre acompanhado de familiares: irmão, cunhada, primos, primas, avós, tias, papagaio, cachorro... e por aí vai.
Nesse ano não pôde ser diferente, muito sol, praia, cerveja, noites em praças. É mais um ano na ilha, mais um dia e uma noite fora do cotidiano de Salvador. Casa de frente à praia, contato absoluto com a natureza, longe de edifícios que tapam da janela da minha casa o mar.
Rapaziada acordava tarde e ainda iria tomar café porque o almoço ainda não estaria pronto. Para a praia, ia todo mundo junto. Praia sem ondas, vê aquele horizonte sem fim, como queria ser nativo, acordar e já dar com um céuzão azul e um mar se contracenando só pra você, não tem preço.
Velha rotina amorense: Acordar e ir a praia, da praia pra casa, voltando da praia, almoçar... geralmente almoçavamos tarde, lá pras 14:00h, 15h00h. A noite, as vezes iria para a pracinha onde rola o famoso "pagodão" na praça de amoreiras.
Pegava minha viola e ia pra frente do mar cantando, arranhando bastante a moça, cantava sem nem sentir que tinha gente por ali, quanta inspiração olhando aquele mar. As vezes ficava assistindo na TV os desfiles das escolas de samba com a minha vó, olhando pro lado via ela fascinada com os olhos brilhando e dizendo : Isso sim que é carnaval !
Noite em que ficavamos sentados num pé de árvore bebendo vinho, conversando e olhando o povo que passara por lá.
Na praia ficava horas avistando aquele horizonte e a Ilha do Medo, longe, na qual sempre quis me aventurar nela, mas como ? nadando que não poderia ser, então... só avistava.
O pessoal iria dar uma volta de carro lá na Ilha de Itaparica, mas chegamos tarde, não tinha um pé de pessoa na rua, a época do carnaval deles já passou, caminhando pela rua, nos perdendo pelas ruas. Itaparica lembra muito o Pelourinho, é a ilha mais "ajeitadinha" das ilhas mas nada se comparava a minha amada Amoreiras que era mais contato, mais pessoas, mais calor. Itaparica é mais ajeitada, tem a orla toda arrumadinha, hoteis super xiques, casas estilo aquelas do Pelourinho.
Volta meio triste pra Salvador, deixar meu "interiorzinho", sempre bate uma tristeza. Um último olhar pro mar e até o próximo ano. "Cultivem esse mar, não joguem lixos nas areias da minha amoreiras!"..."Tchau bonitona, até ano que vem, irei sentir saudades...".