Outro dia conheco um garotinho que sempre está por aqui pelo Júlio César vendendo amendoins torrados. Ele se chama Israel dos Santos Nascimento e tem 9 anos de idade, aparentando uns 5. Mora no bairro do Buquêrão - Parque da Cidade e estuda na Escola São João, está na 4ª série.
Tem o seu lado diabinho de ser, xinga que é uma beleza, gosta de bater uma "luvinha" com conhecidos e bater pra valer, bate na sua cabeça se você estiver de costas a ele, não podendo dar mole porque o murro é pesado. Pois é, o garotinho é pequeno mais é um capetinha.
Sentado, tocando meu violão vejo ele passando, para o lado e pro outro, sem parar, até a rua não ter mais movimentação, pessoas no bar, comprando pão.
A noite é bem cansativa pra ele, as pessoas que vêem ele vendendo amendoin pensam "Mais que menino pequetitico..." e sempre compram na mão dele. O pai, fica sentado numa praça com a sua bandeija de amendoins cheia, enquanto o pequetitico Rael trabalha forte, cansativo, ele e o seu irmão, maiorzinho um pouco.
Sempre que estou na praça tocando violão ele vem conversar comigo. Teve um dia que ele não guentava mais trabalhar, sentou ao meu lado e suspirou forte, tadinho, estara cansado e não poderia falar nada, pobre garotinho inocente.
- E aí cabeludo --- diz ele com uma voz fininha e cheio de gírias.
- Fala mosquinha, conseguiu vender bastante ? ( sempre que faço essa pergunta ele não responde, virando a cara ).
Fica conversando comigo uns dois minutinhos e depois sai pra vender mais.
Um dia estava numa lanchonete daqui do Júlio conversando com amigos, até quando vejo ele sentar ao meu lado, dessa vez ficamos conversando pra valer, por uns minutinhos a mais. Olhei pra carinha dele exausta e disse :
- Fala mosquinha.
- Diga cabeludo
- Me diz uma coisa, do que você gosta de brincar ?
- Gosto de jogar futebol, basquete, picula.... várias coisas, cabeludo. ( toda vez que olha pra minha cara e fala alguma coisa, me chama de cabeludo com uma cara meio que de infezadinho. )
Mas é isso, esse exemplo do pequeno grande Israel que queria passar aqui. Vemos nas ruas de nossa rotina crianças ralando bastante, como gente grande pra conseguir um pão com cafézinho de cada dia numa bela manhã. Serve para agente sempre fazer o bem pra essas crianças inocentes, não olhar pra elas de uma outra forma, porque essas crianças tem todo o direito do mundo de crescer como pessoas saudáveis e com uma cidadania boa de estatuto estável. Mas é complicado, sempre a desigualdade social vem ao meu olhar, ao meu olhar de preocupação, olhar de desespero, enfim, olhar de decepção.
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